O senador Jaques Wagner (PT-BA) procurou o relator do caso Master, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, para prestar explicações sobre sua relação com o ex-sócio do banco Augusto Lima e com Daniel Vorcaro, uma semana antes da operação que fez buscas e apreensões em sua casa na Bahia e no hotel em Brasília onde mora. A iniciativa gerou estranhamento e suspeitas entre os investigadores, que por ocasião da audiência já preparavam a 9ª etapa da Operação Compliance Zero, em que o alvo era justamente o petista.

O objetivo de Wagner na audiência com Mendonça era apresentar argumentos para dizer que não havia nada de errado nem na relação pessoal com os donos do Banco Master e nem nos contratos de sua nora, Bonnie de Bonilha, com o ecossistema de Vorcaro. O senador também explicou a implantação do Credcesta na Bahia, produto de crédito consignado no Master, da mesma forma que já vinha fazendo em entrevistas.
Por ocasião da visita de Wagner ao Supremo, a representação da Polícia Federal (PF) que pedia a Mendonça autorização para realizar as buscas já tinha sido assinada. A data do documento é 10 de junho. Um vídeo publicado pela repórter do GLOBO Jennifer Gularte mostrou que, um dia antes, em 9 de junho, o senador e o diretor da PF, Andrei Rodrigues, conversaram a sós nos bastidores de um evento da Presidência da República no Palácio do Planalto. As buscas da PF ocorreram no dia 18. Na semana passada, o parlamentar deixou a liderança do governo no Senado Federal após uma conversa com o presidente Lula.
No vídeo, é possível ver o senador falando e gesticulando para o delegado, que o escuta atentamente. Não é possível saber o teor do diálogo. Procurados na ocasião, Andrei Rodrigues e Jaques Wagner não se manifestaram.
Questionado pela equipe da coluna sobre por que decidiu pedir uma audiência com o relator do caso Master na semana anterior à operação, Wagner preferiu não se manifestar.
Dólares e euros
Durante a ação, foram apreendidos 55 mil dólares e 33 mil euros no quarto de hotel onde ele se hospedava em Brasília e no apartamento de Wagner em Salvador, além de documentos e do celular dele.
Embora o senador tenha afirmado em uma entrevista à Folha de S. Paulo que o dinheiro foi recebido ao longo dos anos do Senado por diárias em viagens ao exterior e estava em envelopes da Casa, não foram encontrados envelopes do Senado em nenhum dos endereços visitados pela PF. Além disso, a quantia encontrada é um pouco maior do que o que Wagner recebeu em diárias desde 2019.
Na decisão que autorizou a operação, Mendonça escreveu que Augusto Lima “atuou como canal de interlocução” com Jaques Wagner sobre temas prioritários para o banco de Vorcaro, encaminhando ao senador notícias sobre rating, estrutura acionária, CPI do Master, além da operação de venda para o BRB, que foi barrada pelo Banco Central em setembro do ano passado.
De acordo com a PF, a relação entre Wagner e Augusto Lima seria “marcada por elevado grau de confiança pessoal, circunstância que, em tese, teria criado ambiente propício à realização de tratativas reservadas em prol da defesa de interesses privados do Banco Master”.
Em 2018, Lima articulou junto a Wagner, então secretário da Fazenda da Bahia, a privatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), rede estatal de supermercados do governo estadual. O primeiro certame não atraiu interessados, e o empresário sugeriu ao petista que incluísse um cartão de benefícios de modelo consignado no edital. O projeto foi o embrião do Credcesta, que caiu no colo do Master pouco tempo depois.
A investigação encontrou indícios de que o senador recebeu pagamentos do Master durante anos pela empresa da nora, viajava com frequência nos jatos de Daniel Vorcaro e ainda recebeu um apartamento de presente em Salvador avaliado em R$ 2,45 milhões.
Sensação
Vento
Umidade
