
EditorialO editorial do Jornal Candeias expressa o compromisso do portal com a informação responsável, a independência editorial e a defesa do interesse público. É o espaço onde a redação analisa fatos relevantes, cobra transparência do poder público e reflete sobre temas que impactam diretamente a vida da população. Com ética, senso crítico e responsabilidade social, o Editorial reafirma o papel do jornalismo como instrumento de cidadania, fiscalização e fortalecimento da democracia, deixando expressa a sua opinião.
Um editorial publicado no Bahia Notícias pelo jornalista Fernando Duarte, revela silêncio do governador diante as notícias de envolvimento de nomeada por ele em caso escabroso da segurança pública. “As relações entre o Estado e o poder paralelo acumulado por facções criminosas sempre foram faladas "à boca miúda" pela população. Desde que o Rio de Janeiro passou a exportar um modelo de negócio relacionado ao narcotráfico, a Bahia passou a lidar com tais relações de mutualismo, por uma questão estratégica para os dois lados da moeda. A colaboração premiada de Joneuma Neres e a implicação do ex-deputado federal Uldurico Jr. são "a prova que faltava" de que os limites entre o que é Estado e o que é um estado paralelo já não são invisíveis.

Uldurico Jr. é de uma família tradicional da política na região Extremo Sul da Bahia. Eleito por dois mandatos para a Câmara dos Deputados, não dava para tratá-lo como um mero principiante. Tanto que o poderoso MDB não teve constrangimento em tê-lo em seus quadros, apoiado na campanha para prefeito de Teixeira de Freitas por partidos como PT, PCdoB, PSDB e PSB. Foi naquela campanha, de 2024, que a imbricação da história dele com o tráfico começou, segundo o relato de Joneuma. Ali, Uldurico iniciava negociações por votos de maneira nada republicanas.

Porém, o ex-deputado federal foi além da troca de votos por dinheiro via cooptação. Para evitar lidar com dívidas de campanha, aceitou tratar diretamente com o chefe do Primeiro Comando de Eunápolis, Ednaldo Pereira de Souza, o Dada, uma fuga do presídio em troca de R$ 2 milhões. Nesse meio tempo, Uldurico ainda casou, tendo uma festa de pompa com direito a convidados ilustres no Litoral Norte. Enquanto mantinha relações extraconjugais com Joneuma, que, grávida, viu a vida ir ao fundo do poço. A colaboração foi a alternativa para sobrevivência de uma mulher acuada e abandonada.
Só que a delação não levou apenas Uldurico Jr. ao olho do furacão - e consequente prisão. Jogou no colo da administração penitenciária da Bahia a incapacidade de controlar a influência de agentes políticos sobre atividades privativas do Estado. O ex-deputado federal repassava à Joneuma que Geddel Vieira Lima cobrava metade dos dois milhões de reais prometidos por Dada. A ex-diretora do presídio de Eunápolis expunha que, não só ela, mas a cúpula da Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocializacão (Seap) fingia não enxergar o crime organizado tomar conta dos centros de detenção. Sob a tutela do MDB, que ficou com uma "secretaria podre", nas palavras de Geddel, e com anuência do governo Jerônimo Rodrigues.

Aqui, há um ponto de atenção. Geddel vociferou contra Uldurico e as declarações dele à Joneuma. Já o governo optou pelo silêncio, ainda que após a fuga de Dada tenha corrido para tentar estancar a sangria que se abriu. Agora, com a delação, o governo Jerônimo ficou silente demais. E sequer debateu a chance de tornar a Seap mais técnica do que o loteamento político ao MDB, que permanece de dezembro de 2024, na fuga de 16 detentos em Eunápolis, até hoje. Ou seja, justificando os ataques da oposição de que o governo coaduna com o crime - e sem muito esforço (a filiação de Uldurico ao PSDB, no entanto, limita esses ataques).

Para a sorte de Jerônimo, a sintonia entre Ministério Público da Bahia (MP-BA) e a Secretaria de Segurança Pública (SSP-BA) tende a conter impactos ainda mais negativos nas acusações de que o governo nada fez para conter o estado paralelo que se formou dentro e fora das prisões baianas. Uldurico Jr. tende a se tornar boi de piranha nesse processo. A não ser que ele opte pelo mesmo caminho da amante. Aí, os dados a serem compartilhados poderiam implicar atores bem proeminentes da política baiana. Ou a operação abafa falará mais alto?”
Sensação
Vento
Umidade
