A entrevista concedida pelo prefeito Antônio Calmon à Rádio Sociedade da Bahia, no programa apresentado por Kalil, escancarou uma sequência de contradições, distorções e informações que não resistem a uma análise mínima dos números oficiais do próprio município de São Francisco do Conde.
Calmon afirmou, de forma categórica, que a cidade estaria arrecadando atualmente entre R$ 25 milhões e R$ 30 milhões por mês, atribuindo uma suposta “queda de 60%” na arrecadação à venda da refinaria e ao baixo percentual de refino, que segundo ele “não soma nada” para o município. A declaração, no entanto, é desmentida pelos dados oficiais de arrecadação. Somente no mês de dezembro, São Francisco do Conde arrecadou cerca de R$ 56 milhões, mais do que o dobro do valor citado pelo prefeito em rede pública.
Outro fato que chama atenção e agrava ainda mais a controvérsia é que, logo após a repercussão da entrevista, o site oficial da Prefeitura de São Francisco do Conde, onde estavam disponíveis os dados públicos de arrecadação do município, saiu do ar. A indisponibilidade da página ocorreu justamente no momento em que os números oficiais passaram a ser usados para confrontar a fala do prefeito.
A coincidência levantou questionamentos sobre transparência e acesso à informação, já que a retirada do site impede que a população confira, por conta própria, os dados que desmentem a narrativa apresentada por Calmon em rede pública. A falha no acesso a informações públicas em um momento de intenso debate político aprofunda a desconfiança e reforça a percepção de falta de clareza na condução administrativa.

Ao tentar sustentar a narrativa de crise, Calmon apresentou números desconexos, misturou exercícios financeiros diferentes e buscou responsabilizar fatores externos, como a reforma tributária e a antiga administração, sem explicar por que, mesmo diante dessa suposta queda, o município manteve por anos uma das maiores arrecadações per capita do país.
As inconsistências não se limitam à arrecadação. Calmon afirmou que “todos os programas sociais estão sendo pagos” e que o programa Pão na Mesa estaria em pleno funcionamento. No entanto, a realidade vivida pela população contradiz o discurso oficial. O município já enfrentou atrasos salariais, reclamações de beneficiários de programas sociais, redução de serviços públicos e cortes abruptos em contratos essenciais — alguns deles chegando a 100% de redução, conforme admitido pelo próprio prefeito.
Ao afirmar que a Câmara Municipal precisou aprovar a redução de salários para evitar demissões, Calmon tenta transferir à crise financeira a responsabilidade por decisões administrativas que, na prática, refletem má gestão, falta de planejamento e ausência de transparência. A tentativa de justificar tudo com a promessa de que “dias melhores virão” e com a expectativa de uma futura refinaria, que sequer tem cronograma definido, soa mais como aposta política do que como solução concreta.
A entrevista, que deveria esclarecer a população, acabou reforçando a percepção de que há um abismo entre o discurso oficial e a realidade vivida em São Francisco do Conde. Ao minimizar números reais, inflar a narrativa de crise e omitir dados objetivos, o prefeito não apenas fragiliza a confiança pública, como também agrava o sentimento de abandono de uma população que convive com desemprego, retração econômica e falhas nos serviços básicos.
No fim, o apelo de Calmon para que “a comunidade entenda e apoie” esbarra em um ponto central: não há como pedir compreensão quando os fatos desmentem o discurso. E, neste caso, os números falam mais alto do que qualquer entrevista ensaiada.
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